segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um que se esqueceu

Faleceu Castello-Lopes, com 85 anos, em Paris. Um fotógrafo que incidiu tanto do seu tempo a demonstrar como viviam os portugueses no Estado Novo. Foi também tradutor, diplomata, distribuidor de cinema. A função pela qual ficou mais conhecido, era precisamente aquela em que não tinha nenhuma formação, a de fotógrafo. Aprendeu a tentar, a falhar e a corrigir-se, coisa que escapa em compreender a tantos interessados em fotografia. Que se aprende fazendo.

Numa época em que se sabe que os recursos escasseiam mas se vive como nunca fossem falhar, mais depressa se investe milhares de euros em material e em cursos do que se pega numa qualquer máquina fotográfica e gasta tempo a usá-la, do que se compram livros e se estudam os "mestres", se ganha cultura fotográfica, se aprende por imitação e se desenvolve o estilo próprio, tudo leva tempo. Na verdade, na sociedade em que vivemos em que o valor do trabalho se sobrepõe a todos os outros, esse valor leva à aniquilação de um bem mais precioso, o tempo. Podemos até ter o dinheiro para investir e fazêmo-lo por forma a colmatar a nossa falta de tempo para aprender. É a era do imediatismo. Às custas da qualidade do trabalho, da falta de reconhecimento e do esquecimento posterior.

Independentemente dos gostos, e o Gérard Castello-Lopes não tinha uma linha estética que fosse das minhas preferidas, há que lhe reconhecer o mérito e a dedicação e tenho pena que os interessados em fotografia (que são aos baldes, ao contrário dos fotógrafos) mas que se julgam fotógrafos por terem o último modelo da marca xpto não invistam mais do seu tempo a descobrir quem foram estes pioneiros. Porque não sabem mesmo.

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