terça-feira, 19 de maio de 2009

Palas

Nos olhos, claro está.

Eu tenho valores que defendo. Com determinação, mas de forma discreta. Já fui mais agressiva nas minhas manifestações, agora não tenho tanta paciência para me defender.

Uma coisa que fui aprendendo ao longo do tempo é que as pessoas quando entram num debate, raras vezes é para aprenderem alguma coisa com ele. Quando discutem é para ganharem (não sei muito bem o quê). Sou vegetariana há 10 anos e já ouvi TODO o tipo de argumentos contra. É que todos. Cada pessoa que me abordava em relação a essa temática tinha a sua própria teoria contra, achando-a brilhante e original, sem saber que já a tinha ouvido dezenas de vezes. Nunca ouvi um argumento que cilindrasse a pertinência da escolha do meu tipo de alimentação.

A razão é simples. As pessoas assumem que se sou vegan é porque sou uma defensora acérrima dos direitos dos animais e, quanto a isso, há sempre incoerências. É extremamente difícil abdicar de produtos livres de crueldade. À partida assumo que toda a gente considere os humanos como animais. Há-de me dizer um vegan que seja que leva uma vida livre de crueldade, que não consome produtos com animais e vindo da exploração de animais (humanos incluídos).

Deixo aqui bem claro porque motivo não bebo, não fumo e não como produtos de origem animal. Em relação à bebida e ao consumo de substâncias, não é certamente porque uma banda nos anos 80 decidiu cunhar a expressão que veio a definir todas as pessoas que vivem livres disso. Não fumo e não bebo porque prezo a sanidade do meu cérebro e a integridade do meu corpo. Não o fazia muito antes de ouvir a expressão Straight Edge. Já experimentei vários tipos de bebidas alcoólicas na minha adolescência e a verdade é que não gostei de nenhuma. Não gostei da sensação do álcool a escorregar garganta abaixo e ninguém me diga "esta é fraquinha nem sentes o álcool" ou "sei uma bebida que ias adorar, parece sumo". Se tiver uma gota de álcool, eu noto e não gosto. E não compreendo porque pessoas bebem bebida atrás de bebida para alterar o seu estado. Eu gosto de ter noção do que faço.

Em relação ao fumo, em primeiro lugar abomino a indústria tabaqueira em segundo lugar, também me permiti experimentar e usufruir do que não se pode na adolescência. Deu para rir, move on.

No que concerne o veganismo, também é simples. Em primeiro lugar, porque posso. Vivo numa sociedade que tem ao meu dispôr todo o tipo de produtos para que não me falte nada. Se vivesse numa ilha com poucos recursos, teria de comer peixe. Precisaria das proteínas e dos sais minerais e não teria outra escolha, já que para mim ficar doente não é opção. Em segundo lugar, porque a criação intensiva de animais é cruel, destrói o ambiente e é desnecessária.

As pessoas comem 3x mais proteínas do que as que necessitam e têm a errada ideia de que precisam de comer carne todos os dias. Na verdade não precisam de comer carne alguma, uma vez que vêm satisfeitas a suas necessidades nutricionais com todos os outros produtos.

Não tenho nada contra a predação, considero-a natural. Animais comem animais. Tribos caçam, porque a carne é um contributo valioso para a sua alimentação. Algumas fazem rituais de agradecimento ao animal que sacrificou a sua vida para que eles pudessem sobreviver. Esse tipo de respeito pela vida não existe na nossa sociedade. Na qual não faz sentido algum caçar, porque há comida em todo o lado. Caçam por recriação.

Vegan e sXe que militam pelas suas causas, mas depois compram roupa de marca, comem como uns ursos, apoiam iniciativas que têm origens duvidosas, metem lenha no forno capitalista, não fazem sentido algum. Antes de criticarem quem come carne, olhem para as vossas próprias incoerências e mudem-nas. Chama-se crescer.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Português e a ópera

Fui ver o Carmina Burana. Era uns dos tópicos de "coisas para fazer antes de morrer". É brilhante. Infelizmente, os meus hábitos não me permitiram apreciar o espectáculo como devia. Estou habituada a ir dormir cedinho e acordar cedinho, ou seja, adormeci umas quantas vezes.

A sala era medonha, com um acústica terrível. Principalmente para um espectáculo daquela natureza. E os cartazes da Sagres por todo o lado, conferiam uma atmosfera pirosona.

Ponto alto: o indivíduo que estava atrás de mim levou uma saco do continente cheio de snacks e estava quase a estourar-me a paciência. Sempre a mexer os sacos e a fazer aqueles barulhinhos irritantes do plástico. Que passa pela cabeça de alguém para ir artilhado da batata frita e afins para um concerto de Beethoven e Carl Off? "Oh filha, despacha-te porra que o Bitóven 'tá quase a começar! Trazes a sande de coráte? E a jola?"




(estúpidos...)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pius do meu coração

Aqui fica a lista das minhas aves favoritas:


Ciconia ciconia - A nossa cegonha. É a minha ave preferida. Nunca me canso de ir ver cegonhas.



Elanus caeruleus - Peneireiro cinzento. Só vi duas vezes, mas chegou-me. Os olhos rubi são lindos. Tenho a foto de um no meu quarto, que nunca sai de lá.


Athene noctua - Mocho galego. Se me dissessem assim "escolhe aí uma ave para ser tua amiga", era este. Gostava de ter um mocho amigo. Eu chamava e ele vinha e eu dava-lhe beijinhos. E depois ia de novo à vida dele.

~
Corvus corax - Corvo. Sempre gostei. Deve ter começado nos 90's quando vi o filme. Mas sempre respeitei a inteligência destes bichos. Para quem não sabe, é o maior pássaro do mundo. Curioso o escrever "Corvus corax" no Google e só aparecerem cenas da metalada belzebu.
Vá, já chega.

Ontem esqueceu-me

De um outro ódio de estimação: inventar títulos. Odeio ter de me lembrar de nomes para textos ou fotos ou o que for. Que coisa.

Early bird

5:34 da manhã. Olhei para o relógio e pensei "vai-te encher de moscas, man!" Aquilo não era hora. Virei-me para o outro flanco. E de volta para o mesmo. E de novo para o outro. E...

Estava desperta como se tivesse levado com um balde de Champomi gelado nas fuças. Como há poucas coisas que me irritem mais que ficar na cama quando não tenho sono, levantei-me. Despachei-me e saí de casa. Nem vos digo a hora. Vim para Lisboa munida da artilharia fotográfica. Bem, tirei meia dúzia de fotos, mas valeu o passeio. As dinâmicas matutinas são engraçadas. E fazer as coisas com calma em vez de andar sempre a correr, tem outro sabor.

Estive que tempo a observar uns pombos (sim, eu gosto de pombos e não os considero ratos voadores) a comer milho no jardim na Praça da Alegria. Estava um pequeno pardalito a tentar gamar qualquer coisinha, mas viu-se grego. Foi embora com o buxo vazio, coitado. É difícil viver num mundo de grandes, quando somos pequenos, no sentido literal e no sentido figurado.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Ódios de estimação

Nº 1 - LOL - não há castigo suficientemente doloroso para quem cunhou tal expressão. E congéneres. Hóme, não me escrevam isso. Pior, não me DIGAM isso. Sim, que há quem se expresse de tal modo. ("Barra not", não é Suss?)

Nº 2 - 50 Cent. Não vale dois tostões, quanto mais 50 cêntimos. Como se não bastasse, é imortal. Já levou 400 tiros e não morre nem por nada. Não que eu queira que ele morra, apenas bani-lo da presença de pessoas. E animais. E plantas. Pode viver sozinho num lado qualquer, não me ofende. Podíamos fazer uma ilha à la Dubai, em forma de torradeira, no meio do Mar Morto. Podia fazer lá o ninho. Acreditem que era um investimento justificável.

Nº 3 - Erros ortográficos- Faz-me espécie. Eu compreendo o analfabetismo, a dislexia e afins. Mas pessoal instruído a escrever MALE, não dá. Pah, foram à escola, lêem as legendas dos filmes e das séries, alguma coisa devem ter apreendido, ponham-na em prática, não custa nada e só fica bem.

Nº 4 - Pessoas agressivas - para quê?

Nº5 - Burocracia - é que eu tenho vivido nessa pátria. O embrutecimento intelectual, a repetição rotineira de tarefas sem sentido, o tempo perdido, os recursos gastos.

Nº 6 - Jennifer Lopez e dessas. Podia casar-se com o 50 Cent e ir para a ilha que pensei para eles.

Título

"A vida corre inteira pelas nossa mãos, a morte morre inteira pela força das nossas mãos"

Já ouvi isto cerca de 5x a mais do que queria (ouvi 6x no total, dou sempre o benefício da dúvida).

Ora bem, vamos lá analisar esta lírica bestial. Feito um esforço hercúleo (duas sinapses e meia), concluo: mas que merda.

É que prefiro aquelas letras que não fazem sentido nenhum, que cantarolamos sem pensar, tipo Nirvana. Vós, indivíduos nostálgicos dos 90's (como eu, admito, que ainda hoje vinha a ouvir Pearl Jam no comboio para me alhear dos aromas da hora de ponta, dos enconstanços "inadvertidos", das conversas diarréicas e mais que seja), eu sei que a vida, de tão trágica que era, não nos permitia dar a devida ponderação ao que cantávamos.

All we know is restitution
Living out your date with fusion
Is the whole fleece shun in bastard
Don't feel guilty masturbating

ou ainda

All we know is Restitution
Living out your date of future
Theres a hope, please show me faster
Don't forget to pass a riot

E ainda há mais versões desta música, tantas quantas as pessoas que a ouvem. A verdade é que ninguém percebe um corno do que ele diz, mas isso não importa. O pessoal queria era cantar.

Mas isso já foi! Estamos em 2009. Não há a heroína como desculpa.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Not cool

Eh pah, eu não sou fixe. É que não sou mesmo.

Não sou pessoa de sorrir a ouvir as barbaridades alheias, só para ser simpática. Então se me forem dirigidas, já se sabe, a mui conhecida sinceridade da minha pessoa que atropela sem dó nem piedade a diplomacia. Não é que eu ande por aí a oferecer opiniões, não o faço. Apenas a dou quando me é pedida ou quando se justifica fortemente. Principalmente as pessoas que me são mais próximas, já têm tanto quem lhes diga o que querem ouvir, que quando se dirigem a mim já fizeram o aquecimento às orelhas e estão prontos.

Não me impressiono com o estilo, nem o sucesso de ninguém. De tal modo que quando me começam a debitar títulos só me apetece virar as costas e ir embora. Dificilmente trato por Dr. alguém que não seja a minha médica. Tenho uma extrema dificuldade em compreender hierarquias e autoridades. Deviam ambas ser abolidas. Eu trato com o mesmo respeito um sem abrigo, o patrão, um miúdo que meta conversa comigo ou, mais frequentemente, uma qualquer pessoa com um distúrbio mental, acho que exerço uma certa atracção a essas pessoas, porque já perdi a conta às vezes que vieram ter comigo para conversar. E, a eles, nunca nego uns minutos de atenção. Já publicidades e propagandas políticas - 'tá a andar! Faço um esforço por tratar toda a gente do mesmo modo. Acho que a boa educação está pela hora da morte, já que um "obrigado", um "se faz favor" e frases semelhantes devem custar tanto dinheiro, que ninguém as desperdiça. E fico a ver mal quando seguro a porta a alguém que não me agradece de volta.

Também não me traz felicidade alguma as formas de diversão vigentes. Não gosto de "ir ao café", para juntar pessoas. Essa do "temos de tomar um café, há que tempos que não nos vemos" faz-me confusão. Em primeiro lugar, toda a gente sabe que eu não gosto de café. Em segundo lugar, porque é que para ver alguém tenho de consumir? Porque nunca oiço "havemos de ir a um jardim, meter a conversa em dia"? Alguém duvida que um jardim, sentadinha na relva é mil vezes melhor que qualquer café?

Faz-me coiso pessoas que têm medo de se sujar. Não comem o pão porque caiu ao chão. Não sentam na relva porque tem formigas ou, Deus nos livre, pulgas ou carraças. Lavam as mãos quando tocam no que quer que seja. Tomam banho todos os dias, ou duas vezes por dia. Lavam toda a roupa que tocam, mesmo que não esteja suja nem cheire mal. Usou, é para lavar. Se saem de casa sem perfume, voltam para trás. Há uma linha muito bem definida entre ser asseado e ser desperdiçador. Eu sou asseada e não tomo banho todos os dias, tenho dias que lavo as mãos uma vez, se tanto, e só lavo a minha roupa quando está a roçar a linha do socialmente aceite.

Acho que sou, basicamente, a única pessoa da minha idade que anda de transportes públicos, coisa que é considerada um desfalque terrível na linha do sucesso pessoal.

Aqui fica o melhor poema alguma vez escrito, que sei de cor desde a primeira vez que o li, algures no secundário quando o meu professor de ITI trazia estes textos fenomenais que nos obrigava a editar. Houvessem mais professores assim. Já que tínhamos que fazer truques no Word, então que tivessem como pano de fundo alguma substância que nos deixasse a pensar ao mesmo tempo que fazíamos tarefas aborrecidas.

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Cântico Negro - José Régio

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Urticária

Há coisas que me dão comichão.

Uma delas é ver o orgulho perante a ostentação de produtos que têm origens duvidosas. Ou pior, que tem origens que até nem deixam dúvidas nenhumas: saem ou passam pelo corpo maltratado de outrém. Todos nós que temos olhos e/ou ouvidos que funcionem temos uma ligeira noção de como funcionam corporações como a Nike e afins. Sabemos que os produtos são fabricados algures na Ásia por meia dúzia de tostões e vendidos por centena e tal de euros aqui. Sabemos. Sabemos também que pelo caminho fica o trabalhador que o fez e que continua com fome, o que os transporta, os revendedores, o pai já vai e o Zé do bairro que os vendeu e ganha o salário mínimo. Permite-nos o QI acima de 80 concluir para onde vai o carcanhol.

Ora, custa-me então perceber porque é que pessoas INFORMADAS usam ténis Nike como medalhas de honra. E quem diz Nike diz qualquer uma outra marca de ténis ou de roupa. Que tiram propositadamente fotos aos pés para mostrarem aquilo por que tiveram de trabalhar durante meio mês para poderem usar.

Bem, fico tentada a pensar que tentam compensar por alguma coisa. Muitas vezes constatei que assim é. Pessoas que não gastam meia caloria para ajudar ninguém, inclusivé eles próprios. Não se esmeram por explorar as potencialidades que têm de se individualizar e de tudo fazem para pertencer a um grupo.

Não dúvido que as forças de atracção ao grupo são monumentais. Mas não será muito mais recompensador sentir que, estando alerta, nos recusamos a fazer o que esperam de nós? Sentir que a nossa existência não está pré-programada pelas forças do marketing?

Mete-me o Flávio mais uma vez a pensar com algo que me diz. Falávamos nós da necessidade de informação, que preferia morrer consciente e miserável que viver alegremente estúpida e ignorante a vida toda. Relembra-me ele que eu não tenho como ter noção de como a realidade que eu observo pode estar alterada. E é tão verdade. Eu consigo observar o mundo do ponto de vista que tinha com 15 anos, quando sabia muito menos que agora. É totalmente diferente do mundo que observo agora, não que o mundo tenha mudado assim tanto neste últimos 10 anos, mas porque os meus olhos mudaram.

Ando a ler (com vários anos de atraso) o No Logo, da Naomi Klein. Alterou-me mais uma vez a realidade. Se todos sabemos aquilo que referi no início do texto, neste livro vem muito daquilo que não sabemos. Muitas coisas eu suspeitava, obviamente. Mas não tinha noção da dimensão do problema. E que problema é esse? As marcas. A forma como usurpam o nosso espaço físico e mental, a nossa liberdade enquanto indivíduos e enquanto seres sociais que somos.

Outra micose que me dá é a da minha hipocrisia. Eu tenho marcas. Felizmente nunca fui tarada pelo assunto, mas tenho. Nunca fui capaz de comprar uns ténis de 10 euros. Mas a minha mentalidade está a mudar. Aflige-me agora a falta de alternativa. Tudo que se vê à venda é ou caro, ou feito num recanto miserável do mundo, ou tem pele.

Urge encontrar-se uma TAZ onde eu possa fazer o ninho...